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A história do jovem chefe que tirou do anonimato a casa de comida nordestina, para levá-la à lista dos restaurantes mais comentados de São Paulo.
Vila Medeiros é o destino. Pois apesar de um bairro distante da agitação do centro paulistano, suas ladeiras e ruas estreitas guardam um local que se tornou conhecido no circuito gastronômico. Trata-se do restaurante Mocotó, que, após décadas em atividade, viu sua fama crescer quando Rodrigo Oliveira, filho de Seu Zé Almeida, assumiu a casa há cinco anos. Por isso é impossível falar sobre o jovem chef sem contar a história de sua família.
Seu Zé Almeida e o início de tudo
Há 70 anos, em Mulungu, um pequeno vilarejo do sertão pernambucano, nasceu José Oliveira de Almeida. Aos 25 anos desembarcou em São Paulo, após um percurso que durou oito dias. “Trabalhei na roça até a véspera da viagem, e a única bagagem que trouxe foram duas camisas, uma calça e um par de calçados. Minha mala era um saco, e o cadeado era o nó”, conta o nordestino cheio de vida. Em 1973, em sociedade com dois irmãos, montou a Casa do Norte Irmãos Almeida, na Vila Aurora. Depois de um ano montou seu próprio bar na Vila Medeiros, e foi aí que começou a história de sucesso do caldo de mocotó.
Tudo à brasileira
1980 foi o ano de seu nascimento, e o local, o bairro da Vila Maria. Mais do que a chegada de um filho, esse foi um marco que também mudaria a história do restaurante da família. “Lembro até hoje do cheiro que tinha a casa do norte do meu pai, logo que comecei a frequentá-la. Os queijos, os bolos, as carnes, os feijões e farinhas... Tudo isso criava uma atmosfera mágica pra mim”, lembra Rodrigo.
Determinação, gosto pela gastronomia e mãos na massa. Foi assim que, apesar de jovem, ele viu o sucesso chegar logo. “Comecei lavando pratos e fiz isso durante um bom tempo. Depois fui fazendo de tudo, atendendo mesas, limpando e ajudando na cozinha”, recorda Rodrigo. Mas foi em uma viagem do pai para Pernambuco que ele começou a correr atrás do seu sonho: após muitas madrugadas com pedreiros, encanadores e eletricistas, o velho boteco foi se ajeitando e tomando forma.
“Conheci um rapaz que estudava gastronomia na Anhembi Morumbi e estagiava no Bistrô Jaú. Tornamo-nos amigos e daí veio o descobrimento desse mundo”, conta Rodrigo sobre o início de seu interesse em estudar na área. O rapaz, hoje dono do Allez, Allez!, é o chef Luiz Emanuel, figura que inspirou o jovem a lançar-se de corpo e alma no mundo da culinária.
“A faculdade foi, sem dúvida, um grande marco pra mim. Não conhecia muito de cozinha e foi lá que descobri esse mundo”, conta Rodrigo, que na época estagiou com mestres como Laurent Suadeau e Jefferson Rueda. Em contato com as grandes cozinhas, ingredientes e técnicas, o chef resolveu conhecer melhor as origens da sua culinária, viajando sozinho pelo Nordeste: “passei cinquenta dias percorrendo os rincões da região, visitando produtores, mercado e restaurantes, conversando com cozinheiros e tentando entender a diversidade nordestina. Foi uma viagem de muitas descobertas”, conta.
Após tantas aventuras, o chef afirma que isso tudo é só o começo, pois pretende continuar levando aos mais diversos paladares as iguarias que só o Brasil tem. E assim ele segue atendendo em sua casa os mais diversos públicos: desde o mestre de obra da construção ao lado, até os empresários que vêm de outros bairros prestigiar a sua cozinha. “O Mocotó é um espaço popular e democrático. As pessoas são tratadas da mesma maneira, independentemente de onde vêm. Acho que isso faz com que elas fiquem mais à vontade e relaxadas, pois, no fundo, todo mundo quer as mesmas coisas: boa comida e boa acolhida”, enfatiza.
Com a garra herdada de Seu Zé Almeida, o paladar e criatividade conquistados com muito estudo e observação, Rodrigo e sua cozinha dão o que falar. Mas os projetos não param por aí: “sou patrono do curso de gastronomia da Escola Técnica Estadual Carlos de Campos”, comenta o chef sobre a iniciativa que visa oferecer oportunidade de estudo para quem não pode pagar uma faculdade. E assim, com amor e sabor, o jovem chef segue surpreendendo a cena gastronômica ao levar os aromas regionais a todos os cantos da cidade.
Texto: Beatriz Carrasco
Foto: Norio Ito
Toque do Chef
“Falando em linhas gerais: use sempre ingredientes de boa qualidade, descomplique e pense sempre que cozinhar é um gesto de doação”.