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É proibido fumar!
Nova lei antifumo entra em vigor, divide opiniões e muda a rotina de casas e clientes.
Conviver com a fumaça de cigarro em bares, casas noturnas ou restaurantes sempre fez parte do dia a dia dos paulistas. Até agora. Isso porque, no dia 7 de agosto entrou em vigor uma nova legislação que proíbe o fumo em ambientes fechados de uso coletivo. A medida, que acompanha uma tendência internacional, já foi adotada em cidades como Nova York, Londres, Paris e Buenos Aires. Assim, a nova lei restringe, mas não proíbe o ato de fumar. E como os fumantes não são alvos da fiscalização, a responsabilidade fica para o proprietário do local, o que exige mudanças drásticas nos procedimentos internos.
A ação de São Paulo, pioneira no Brasil, inspirou outros Estados a adotarem a prática. Sancionada em maio pelo governador José Serra, a lei chegou também a outras três cidades brasileiras. Em 11 de agosto foi aprovado na Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), um projeto de lei que proíbe o fumo em locais fechados de uso coletivo no Estado. Em Salvador, é proibido fumar em locais fechados desde o início de agosto. Em Goiânia, a lei foi sancionada em junho e entra em vigor agora em setembro. Em Curitiba, a Câmara Municipal aprovou um projeto de lei também no início de agosto. No Rio Grande do Sul, o projeto já está na Assembléia Legislativa.
Bares, restaurantes e... parques?
Dentro de bares, restaurantes e lanchonetes passa a ser proibido o cigarro, mesmo em áreas para fumantes ou umódromos. Em mesas na calçada é permitido, desde que a área seja aberta e a fumaça não entre no estabelecimento. Mas não é só nesses locais que a lei passa a agir. Em empresas, shoppings, praças de alimentação, táxis, ônibus e até parques, hotéis e pousadas, o cigarro passa a ser controlado.
No caso das empresas, shoppings e praças de alimentação, não é autorizado nenhum tipo de fumódromo. Em táxis e ônibus, mesmo com as janelas abertas, também é proibido fumar. Nos parques, é permitido apenas nas áreas ao ar livre, e em hotéis e pousadas, espaços fechados de uso comum, como saguões de entrada, corredores e restaurantes, também fica vetado. O fumo apenas estará autorizado no interior dos quartos, desde que ocupados pelo hóspede.
Cigarro no bolso e mãos à obra!
Fixação de cartazes que alertam para a proibição, retirada de cinzeiros e orientação aos clientes. Essas são as medidas básicas que os responsáveis pelos estabelecimentos passam a adotar. No caso de resistência por parte do cliente para apagar o cigarro, a polícia pode ser solicitada. Se o estabelecimento for flagrado desrespeitando a lei, é aplicada uma multa, que é dobrada em caso de reincidência. Se houver uma terceira vez, o local é interditado por 48 horas. E, em caso de nova repetição, a interdição é de 30 dias.
Para evitar a queda do movimento, em especial nos bares e restaurantes, surgem novas alternativas pa-ra atender aos fumantes. A medida principal é a criação ou aumento das áreas abertas onde o fumo é liberado, como jardins, terraços e varandas. Em casas que não têm possibilidade de ampliar o espaço, o jeito é permitir que os clientes saiam para fumar e depois retornem ao estabelecimento.
O lado dos clientes
“Acredito que fumantes também têm que ter uma infraestrutura em seus espaços de lazer, pois faltam lugares adaptados”, comenta a publicitária Carolina Cunha, que, apesar de fumante, apóia a lei. “Sou a favor, todos sabem que cigarro faz mal à saúde, por isso é necessário respeitar as pessoas que não fumam e que se encontram no mesmo local”, observa. Assim como Carolina, grande parte da população apóia a lei, mas com algumas ressalvas. “A medida é importante, mas ainda falta um planejamento melhor. As pessoas vão ter que fumar na rua? Cadê a adaptação dos restaurantes? Quem for dono de um estabelecimento terá que pesar estes fatores”, observa a publicitária, que acredita que lugares já adaptados atrairão em curto prazo de tempo os fumantes.
Por isso, em meio ao período de adaptação, os proprietários de diversas casas passam a lidar com situações distintas, como no caso de clientes que relutam em apagar o cigarro. “Existe um clima de tensão. Não penso mais em ir a uma festa ou casa noturna que não esteja adaptada à lei. Fui a uma balada em que, quem quisesse fumar, tinha que pagar a conta e depois voltar e pegar uma nova comanda”, conta Carolina, que, em outra ocasião, foi a uma casa noturna em que havia área externa, o que resultou em uma grande concentração de pessoas no local.
“É muito constrangedor ter que levantar para fumar lá fora. Mas agora tento segurar minha vontade e fumar após pagar a conta. Talvez o que mude é minha pressa de ir embora”, ri a publicitária. Assim, concordem ou discordem, o fato é que a nova lei antifumo lançou uma nova fase tanto aos proprietários quanto aos frequentadores de bares e restaurantes. E o desafio passa a ser a adaptação e o uso da criatividade para acompanhar os novos rumos e continuar agradando aos mais diversos clientes.
Não é permitido fumar...
No interior de bares, boates, restaurantes, escolas, museus, áreas comuns de condomínios e hotéis, casas de shows, açougues, padarias, farmácias e drogarias, supermercados, shoppings, repartições públicas, hospitais e táxis.
É permitido fumar...
Em casa, áreas ao ar livre, estádios de futebol, vias públicas, tabacarias e cultos religiosos, caso isso faça parte do ritual. Quartos de hotéis e pousadas, desde que ocupados por hóspedes, estão liberados.
O que os clientes acham?
“Vivenciei essa lei na sexta-feira [21/08], pois cheguei em casa e não estava fedendo cigarro. Sem contar que vi gente com preguiça de sair do lugar para fumar, o que ajuda a diminuir o vício das pessoas”. Mayla Carvalho, aviadora, não é fumante.
“Sou contra a lei. Acho um absurdo uma proibição dessas. Vivemos em um país democrático, e esse tipo de decisão vai contra esse conceito”. Fábio Munhoz, historiador, é fumante.
“Sou a favor da lei, pois sou a favor do direito de escolha. E quem fuma não dá esse direito a quem não fuma. Não é justo ter que ficar aturando fumaça em vários lugares”. Alex Tognella, representante comercial, não é fumante.
“Sou a favor, mas não muito. Eu adorei poder ir a lugares sem fumaça, mas acho um exagero não poder ter nem bituca de cigarro dentro do bar. As pessoas são obrigadas, de certa forma a sujar o bolso ou a rua, e, no caso do brasileiro, a opção acaba sendo a rua mesmo”. Victor Herege Dias, fotógrafo, é fumante.